Cinema é música

Ontem eu assisti "Viagem a Darjeeling", outro filme do Wes Anderson sobre famílias disfuncionais que buscam se reconciliar após desentendimentos do passado. Como sempre, o cara consegue fazer ótimo uso da trilha sonora. Inspirado nisso, resolvi listar algumas das cenas musicais mais memoráveis da história do (meu) cinema.

1. "My cherie amour" (Stevie Wonder) em "Quase famosos". A cena é nonsense: absolutamente inebriado de paixão, o garoto William Miller (Patrick Fugit) contempla a sua Penny Lane drogada (Kate Hudson) ser submetida a uma lavagem estomacal. Cameron Crowe deixa de filmar o grotesco da situação para, liricamente, sublinhar a inocência adolescente, que, claro, sempre clama por uma canção.

2. "Needle in the hay" (Elliott Smith) em "Os excêntricos Tenenbaums". A música toca durante a tentativa de suicídio do tenista Richie (Luke Wilson) e a melodia down não poderia ser mais apropriada. Essa, a propósito, é uma das cenas mais emblemáticas do cinema sensorial de Wes Anderson.

3. "The house of the rising sun" (Eric Burdon) em "Cassino". A cena da morte de Nicky Santoro (Joe Pesci) é antológica e escrotíssima. Vou repetir o que já disse em outro tópico: só Scorsese tem talento para filmar alguém sendo enterrado vivo sem resvalar para a escatologia trash; só Scorsese para filmar alguém sendo enterrado vivo ao som de "The house of the rising sun".

4. "Love is strange" (Mickey & Sylvia) em "Cassino". A subestimada (e desencantada) ópera gangster de Martin Scorsese é um manancial de ótimas 'cenas musicais'. A passagem na qual toca o folk cafoninha de Mickey & Sylvia é uma das minhas preferidas em toda a história do cinema. Nela, Ace (Robert De Niro) conhece e cai de encantos pela prostituta Ginger, interpretada obcenamente por Sharon Stone. O mafioso ainda não sabia como o amor pode ser estranho.

5. "Entre dos águas" (Paco de Lucía) em "Vicky Cristina Barcelona". A música, onipresente em quase todo o filme, tem aquela levada dolente - e deliciosa - de amores ibéricos melodramáticos e irrealizáveis, que casa à perfeição com a proposta de Woody Allen.

6. "Rapsodia in blue" (George Gershwin) em "Manhattan". A música descortina o amor de Woody Allen por Nova York e deixa entrever que, sim, ainda é possível acreditar no ser humano.

7. "Perfect day" (Lou Reed) em "Trainspotting". O que é a felicidade plena? Danny Boyle chama o rei da heroína para nos cantar suas experiências, mergulha numa latrina e nos faz vislumbrar os efeitos transcendentais da droga.

8. "The end" (The Doors) em "Apocalypse Now". Na abertura da obra-prima de Francis Ford Coppola, Jim Morrison já nos antecipa: é o fim! Sublime.

9. "Where’s my mind" (Pixies) em "Clube da Luta". Os castelos da metrópole desabam, sobem os créditos finais e junto vem a música cabalística dos Pixies. Catarse total.

10. "Valse n° 2" (Shostakovitch) em "De olhos bem fechados". Sou completamente fascinado pelo plano de abertura do último filme de Kubrick. Com o auxílio luxuoso da valsa de Shostakovitch, o diretor focaliza o desejo e a bela silhueta de Nicole Kidman, mas diz à gente pra ficar de olhos bem fechados. Impossível, meu caro Stanley.

A seleção obviamente não se encerra aqui, mas, como eu não tenho interesse em retomá-la tão cedo, não posso deixar de fazer uma menção honrosa para "The Goonies 'r' Good Enough", canção-tema de Cindy Lauper para "Os Goonies". Lembro bem, com agradável nostalgia, da cena em que os garotos do filme partem em suas bicicletas para a aventura pirata. Não dá pra gente simplesmente desprezar nossa memória afetiva.                    

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