Chama o ladrão!
O autor de “Duas Caras”, o neo-con Aguinaldo Silva, resolveu criar um factóide para ver se atrai audiência para sua moribunda novela. Em seu blog (http://bloglog.globo.com/aguinaldosilva), Silva diz que, por motivos alheios à sua vontade, pode não terminar de escrever o folhetim. Sem meias palavras, afirma que está recebendo ameaças pesadas via celular, mas sequer cogita recorrer à polícia. Pra mim, essa história não passa de embuste, prestidigitação marketeira ou, no mínimo, delírio de grandeza.
Com a intenção marota de atrair os holofotes políticos para si, o novelista evoca um caso recente e obscuro, o assassinato do prefeito petista de Santo André, Celso Daniel. A estratégia surtiu efeito e ele já conseguiu o apoio dos beatos de Salem.
Quando eu vi a tal história no blog de Reinaldo Azevedo, resolvi dar uma espiadela na página pessoal de Aguinaldo Silva. Após ler parte dos textos postados, me lembrei de um filme de Billy Wider, “Crepúsculo dos Deuses”. Especialmente me veio à mente a frase antológica da personagem de Gloria Swanson, Norma Desmond, uma ex-estrela em crise: “Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos.”
Pois é. As telenovelas se tornaram pequenas para o talento de Aguinaldo Silva (não foi à toa que ele resolveu estender a sua genialidade para a blogosfera). O cara se comporta como uma primadona decadente, que não consegue admitir a própria insignificância e o fracasso de sua obra. Ataca virulentamente os críticos, sempre cita que não sei quantas tramas suas foram os maiores ibopes da tv brasileira e bla bla bla. Agora me sai com essa historinha ridícula de que pode amanhecer “com a boca cheia de formigas”.
Ora, faça-me o favor! As pessoas que têm mania de se levar a sério demais sempre se julgam mais importantes do que de fato são. O “Sistema” costuma ser ainda mais impiedoso com tipinhos assim.
Frágeis, iluminadas e destemidas, essas criaturas vivem à mercê da patrulha política implacável, sobretudo num Estado policialesco como o nosso, que devassa secretamente as contas bancárias dos seus cidadãos. Como diria Chico Buarque, só nos resta chamar o ladrão!
A mania de perseguição de Silva é mesmo sintomática. Revela um misto de paranóia e prepotência. A bem da verdade, mais prepotência do que paranóia. O novelista, claro, não se dá conta disso. Chama os atuais ocupantes do poder de fundamentalistas empenhados em salvar o mundo, mas julga a sua novelinha como iconoclástica, capaz de confrontar o politicamente correto e gerar discussões profundas na sociedade. Já compus a cena na minha cabeça: num sobrado da Mooca, após ver os beijos cálidos entre os personagens de Débora Falabella e Lázaro Ramos, donas de casa debatem interculturalidade acirradamente.