"Se homem engravidasse, seria a favor do aborto"
Autor: José Gomes Temporão, ministro da Saúde
Buscar na Web "José Gomes Temporão, ministro da Saúde"
Quando: 9 de maio de 2007
Cada dia que passa, meu verniz de esquerdista fica mais opaco. Eu simplesmente adoro os prazeres burgueses e freqüentemente me deixo seduzir pelas gôndolas do capitalismo. Ao mesmo tempo, encampo a bandeira do social com fervor. Paradoxo? Fraude? É possível conciliar tesão materialista com consciência social?
Ando me questionando se não tenho apenas fetiche pelo povo. Afinal, estou tão próximo 'dele' quanto do elenco de um filme. Sei da sua existência, o vejo por perto, mas não estabeleço contato direto com seus representantes. Pra mim, o povo não passa de uma abstração, um estandarte que eu criei para mitigar a minha culpa católica.
Cada vez mais também vejo aumentarem meus desejos de playboy. Sonho em viajar num cruzeiro pelo mundo, em ter uma bela casa de praia e uma adega climatizada. Por outro lado, nunca realizei uma ação social relevante, nem jamais me engajei numa campanha em prol dos mais necessitados. Tardiamente, começo a notar que a balança está pesando para um dos lados.
Aí, quando estou quase me convertendo em discípulo de Olavo de Carvalho, lembro-me de Bobbio e do sentido ideológico que mais se aproxima da minha condição: o esquerdismo que prega 'disciplina' para o capitalismo e que “considera mais o que os homens têm em comum do aquilo que os divide”.
Para não acentuar as diferenças
A desigualdade é inevitável e natural, diria um direitista. As pessoas são diferentes e lutar por um mesmo padrão de vida para todos é algo impossível, que pode comprometer as liberdades individuais.
Embora com um quê de verdade, o argumento acima me parece muito simplista. Afinal, o contrato social congrega variáveis diversas, complexas, que Marx identificou bem em sua teoria sobre o materialismo histórico.
O binômio explorador/explorado, por exemplo, apesar de nuances e especificidades, é muito antigo e determinou o próprio surgimento do socialismo. Em linhas gerais, sempre quem tem mais poder material acaba subjugando o outro. Desde a Mesopotâmia é assim e a situação não se inverteu após a queda do muro de Berlim.
Tangenciadas pela questão material, existem outras fontes da discriminação, como a disputa entre homens e mulheres e o conflito religioso entre os povos. Todas elas, ao fim, resultam das relações que os seres humanos estabeleceram ao longo da história.
Considerando a tendência histórica do homem de subjugar o outro, não é prudente deixar que as diferenças entre as pessoas se aprofundem.
Optar pela esquerda, então, significa não a recusa do capitalismo (e de suas tentações materiais), mas um esforço para equilibrar 'medidas' e 'valores'.
- Ao invés da defesa desenfreada do liberalismo econômico, o fortalecimento das instituições que monitoram o mercado.
- Ao invés da hegemonia do consumo, a difusão de práticas imateriais (leitura, música, arte).
- Combater a história do “servo feliz”, que inclusive é utilizada pelos cínicos para enaltecer a lógica do mérito. Ninguém é feliz por ser explorado, inclusive os de natureza inexoravelmente 'manual'. Do mesmo modo, não existe mérito que sobreviva em um contexto de iniqüidade.
- É necessário ser darwinista no diagnóstico, mas humanitário na ação.
- Discurso é ação pedagógica. Mesmo quem não faz nada concretamente, pode convencer o outro a aderir a uma causa (qualquer causa precisa de formuladores e executores). É preciso, portanto, verbalizar ao máximo o ideal de igualdade da esquerda para se contrapor ao determinismo da direita.
- Defender a liberdade a todo custo.
- Reconhecer as diferenças e não estimular a intolerância (o que há de incomum também nos une).
No frigir dos ovos, percebo que muito disso eu venho exercitando. E sonhar com uma viagem ao redor do mundo não me transforma num yuppie deslumbrado. Desejar o bom da vida é comportamento coletivo, que independe de ideologias.
"Se homem engravidasse, seria a favor do aborto"
Autor: José Gomes Temporão, ministro da Saúde
Buscar na Web "José Gomes Temporão, ministro da Saúde"
Quando: 9 de maio de 2007
Estava de bobeira pela internet, tentando curar o mal do dia, quando me deparei com “Moses Supposes”, música/cena inesquecível de “Cantando na Chuva”. Nela, Gene Kelly e Donald O’Connor apresentam a mais impressionante seqüência de sapateado da história do cinema. Salvei a minha terça-feira. Às vezes, só um fato bem histriônico, pueril ou fantástico é capaz de nos resgatar do limbo. Por isso, eu aguardo ansiosamente a chegada de minha filha. Seus folguedos certamente preencherão as lacunas do meu dia-a-dia.
![]() | ||
|
|
||
![]() | ||
![]() | ||
|
||