Os melhores da década (Parte II)

 

Os dez discos internacionais da década:

 

1. Up the Bracket (2002) - The Libertines

2. You could have it so much better (2005) - Franz Ferdinand

3. Yankee Hotel Foxtrot (2001) - Wilco

4. Room on fire (2003) - The Strokes

5. Toxicity (2001) - System of a Down

6. From a Basement on the Hill (2004) - Elliott Smith

7. Sonic Bullets (2005) - The Bambi Molesters

8. Back to black (2007) - Amy Winehouse

9. The Pursuit  (2009) - Jamie Cullum

10. Careless Love (2004) - Madeleine Peyroux

 

E menções honrosas para: “Figure 8” (Elliott Smith, 2000), “Road to rouen” (Supergrass, 2005), “A rush of blood to the head”, (Coldplay, 2002), “Confessions on a dance floor” (Madonna, 2005), “Pretty in black” (The Raveonettes, 2005), “Elephant” (The White Stripes, 2003) e “The Gulag Orkestar” (Beirut, 2006).

 

Os dez melhores da TV na década:

 

1. Os Maias, 2001

2. Os Amadores, 2005, 2006, 2007

3. Som e fúria, 2009

4. Capitu, 2008

5. Família Soprano (entrou no ar em 1999 e acabou em 2007, mas o auge se deu entre 2002 e 2005).

6. A invenção do Brasil, 2000

7. Os normais (2001 a 2003)

8. Hoje é dia de Maria (segunda jornada, 2005)

9. Queridos Amigos, 2008

10. Minha nada mole vida, 2006 e 2007

 

Os dez melhores livros da década:

 

1. O filho eterno (2007) - Cristovão Tezza

2. O animal agonizante (2001) - Philip Roth

3. Noturno do Chile (2000) - Roberto Bolaño

4. Budapeste (2004) - Chico Buarque

5. Persépolis (2007) - Marjane Satrapi

6. Juventude (2005) - J. M. Coetzee

7. Mínimos Múltiplos Comuns (2003) - João Gilberto Noll

8. Reparação (2001) - Ian McEwan

9. Terra de Ninguém (2004) - Contardo Calligaris

10. Eles eram muitos cavalos (2001) - Luiz Ruffato

 

E menções honrosas para: “Conversas com Woody Allen” (Eric Lax, 2008) e “Um rio chamado Tempo, uma casa chamada Terra” (Mia Couto, 2002).

 

Fim de papo (mesmo!): os melhores da década

 

Os dez melhores filmes brasileiros da década:

 

1. Lavoura Arcaica (2001) - Luiz Fernando Carvalho

2. Cidade de Deus (2002) - Fernando Meirelles

3. É proibido fumar (2009) - Anna Muylaert

4. Serras da desordem (2006) - Andrea Tonacci

5. O signo do caos (2005) - Rogério Sganzerla

6. O invasor (2001) - Beto Brant

7. Bicho de sete cabeças (2001) - Laís Bodanzky

8. O ano em que meus pais saíram de férias (2006) - Cao Hamburger

9. Tropa de Elite (2007) - José Padilha

10. Madame Satã (2002) - Karim Aïnouz

 

E menção honrosíssima para “Saneamento básico” (Jorge Furtado, 2007).

 

Os dez melhores filmes internacionais da década:

 

1. Os Excêntricos Tenenbaums (2001) - Wes Anderson

2. Cidade dos sonhos (2001) - David Lynch

3. Fale com ela (2002) - Pedro Almodóvar

4. A vila (2004) - M. Night Shyamalan

5. Vicky Cristina Barcelona (2008) - Woody Allen

6. Caché (2005) - Michael Haneke

7. Zodíaco (2007) - David Fincher

8. Dogville (2003) - Lars von Trier

9. Brilho eterno de uma mente sem lembranças (2004) - Michel Gondry

10. Miami Vice (2006) - Michael Mann

 

E menções honrosas para: “Foi apenas um sonho” (Sam Mendes, 2009), “BatmanO cavaleiro das trevas” (Christopher Nolan, 2008), “A nova onda do Imperador” (Mark Dindal, 2000), “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” (Cristian Mungiu, 2007), "Lucia e o Sexo" (Julio Medem, 2001) e “Encontros e Desencontros” (Sofia Coppola, 2003).

 

Os dez discos nacionais da década:

 

1. Bloco do Eu Sozinho (2001) - Los Hermanos

2. (2006) - Caetano Veloso

3. Universo ao meu redor (2006) - Marisa Monte

4. Vagabundo (2004) - Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede

5. Traz a pessoa amada em três dias (2004) - Canastra

6. CSS (2006) - Cansei de Ser Sexy

7. Peixes, Pássaros, Pessoas (2009) - Mariana Aydar

8. Charme Chulo (2007) - Charme Chulo

9. A procura da batida perfeita (2003) - Marcelo D2

10. Milagreiro (2001) - Djavan

 

E menções honrosas para: “Japan Pop Show” (Curumin, 2007), “Vagarosa” (Céu, 2009), “Braseiro” (Roberta Sá, 2005), “Cosmotron” (Skank, 2003), "Nadadenovo" (Mombojó, 2004), "Tanto Tempo" (Bebel Gilberto, 2000), “O som da moda” (Acabou la Tequila, 2004), “Ativar retrofoguetes” (Retrofoguetes, 2005), “O exercício das pequenas coisas” (Ludov, 2005), “Samba meu” (Maria Rita, 2007) e "Aystelum" (Ed Motta, 2005).

 

Antes do adeus


Eu vou aproveitar a deixa de Kátia Borges, do Madame K, para também por um ponto final no meu moribundo blog. Estou no ar desde 2006 e não gostaria de simplesmente deixar o Cova rasa agonizar até o completo esquecimento de todos, inclusive o meu. Em geral, os momentos por aqui foram divertidos, mas, como tudo na vida, chegou a hora de dar tchau. O Cova cumpriu a sua trajetória: nasceu, viveu o seu “apogeu” e, claro, entrou em decadência. Eu nem cumpri a missão de listar os 100 melhores filmes que vi na vida, mas isso já não importa mais. Antes de baixar a cortina, queria compartilhar com os poucos e-leitores que me acompanharam ao longo desses anos uma última impressão.

Sexta-feira estava zapeando displicentemente e parei na última minissérie exibida pela Globo, “Cinquentinha”. Troço trash, medonho, mas que prendeu momentaneamente a minha atenção por causa de Maria Gadu. Sim, a nova sensação da MPB emplacou duas músicas na trilha da série e uma delas é simplesmente espetacular: “Ne Me Quitte Pas”. Esqueçam as versões mais plangentes da canção. Gadu construiu uma ainda mais triste, apesar do ritmo aceleradinho. A voz da cantora tem um travo de sofrimento lindo, quase desesperador. Pois bem, a música sempre aparecia nas cenas de Suzana Vieira, que aparentemente interpretava ela mesma na série. A coisa era interessante: enquanto a intragável atriz tentava passar uma imagem de diva absoluta, acima de todas as fatuidades do mundo, havia a música de Gadu. Aí o caldo entornava e a cena resultava ao mesmo tempo fake e impressionantemente reveladora. Era como se todo o esforço de Vieira para aparentar uma glória transcendental fosse desconstruído pela voz de Maria Gadu. A gente quase podia se compadecer da figura melancólica da atriz, uma criatura absolutamente trágica, cheia de fissuras entre as inúmeras plásticas, que sempre tenta passar para os outros uma imagem de felicidade estonteante, mas que, no fundo, não passa de uma caricatura e de uma pessoa amarga, um zumbi deslumbrado com o salário que recebe da Globo. Enfim, a composição ‘fílmica’ (imagem + som + montagem) tem essa capacidade de revelar o que alguns tentam inutilmente esconder ou mistificar.

Vida que segue. Valeu pela companhia, galera! Feliz 2010, 2011, 2012...

No "Céu"

Essas 'novas' cantoras do Brasil não param de surpreender. E 2009 tá muito bom pra elas - e pra mim obviamente. Depois de Mariana Aydar é a vez de Céu ocupar insistentemente o meu player. Que beleza o seu "Vagarosa"!

A paulista mais jamaicana do mundo abre o disco com o cavaquinho de Rodrigo Campos, para o muxoxo dos que já não aguentam mais a tendência "novas cantoras brazucas que cantam samba". Eu não tenho nada contra, mas Céu é de fato bem diferente e "Sobre o amor e seu trabalho silencioso" não passa de uma introdução classuda e, digamos, provocativa, para o delicioso reggae "Cangote" que vem a seguir. Logo eu, que não sou muito chegado no ritmo de Bob Marley, estou aqui me desmanchando de amores pela sonoridade de Céu. Talvez porque a música dela não se encerre nesse ou naquele ritmo. Dub, samba, soul, jazz e até hip hop também interessam à cantora e isso faz toda diferença.

Até o momento, as músicas do cd que mais me pegaram são: "Bubuia" (que tem a luxuosa participação de Thalma de Freitas - como canta bem essa moça!), "Papa" (um estiloso reggae-jazz), "Ponteiro" (prestem bem atenção nas fantásticas divisões que Céu adota nessa balada) e "Espaçonave", vibe que fecha o disco em alta, aos préstimos da guitarra de Beto Villares, sob a benção de Jimi Hendrix e Tim Maia.

Ei, Roberta e Rafael: "Sonâmbulo" é a cara de vocês!

 

What else do we need except from my eyes?

Top 8 da minha lista de filmes prediletos: "Crepúsculo dos Deuses"

Quando Norma Desmond (Gloria Swanson) diz ao escroto Joe Gillis (William Holden) a solene frase "what else do we need except from my eyes?" já se passaram mais de dois terços de "Crepúsculo dos Deuses", o estudo definitivo de Billy Wider sobre a farsa hollywoodiana. A essa altura, o espectador provavelmente estará magnetizado pelo olhar oblíquo e caricatural da personagem e assim permanecerá até o desfecho do filme, quando um super close dá um fim em tudo, menos na icônica (e indelével) face da ex-estrela do cinema mudo. É exatamente por traduzir em imagens a força do seu ótimo roteiro que Billy Wider consegue transcendê-lo. Ao dizer que nada mais é preciso do que o olhar da decadente Norma, o genial diretor, na verdade, está afirmando o seguinte: em cinema, a expressão é o que verdadeiramente importa.

Obs.: acho o nome do filme em português, "Crepúsculo dos Deuses", ainda melhor do que o título americano, "Sunset Boulevard". Em sua intenção pomposa, ele expressa bem o universo anacrônico, carregado e decrépito de Norma.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Até tu, São Paulo?


Leio a legislação antifumo do Estado de São Paulo e reconheço sua natureza totalitária


A SÉRIE "Mad Men" ainda não estreou no Brasil. Lamento. Melhor é impossível. "Mad Men" é o retrato perfeito dos publicitários da Madison Avenue na Nova York sofisticada de 1960. Mas é mais do que isso. Um fresco sobre a grande transição americana: do aburguesamento dos "fifties" à contracultura dos "sixties". Do tédio à lixeira.
Um pormenor, porém, não deixa de causar espanto entre os filistinos: o fumo. Em "Mad Men", toda a gente fuma com uma naturalidade que nos parece herética. Dentro dos edifícios, fora dos edifícios. Mães, pais. Patrões. Empregados. E médicos, é claro, a começar por um ginecologista que segura o cigarro com uma mão e faz o exame com a outra. Equilibrismo puro.
Tanto fumo não deveria espantar. Pessoalmente, ainda recordo o tempo heroico em que o meu avô me levava ao cinema e fumava, em plena sala, do princípio ao fim.
E, historicamente, "Mad Men" está na viragem. Em 1950, Richard Doll publicava o primeiro grande ensaio científico sobre a relação direta entre fumo (ativo) e doença. Só em 1970 chegou o mito do "fumo passivo". Digo "mito" e digo bem. Ainda está para aparecer o primeiro estudo cientificamente rigoroso capaz de mostrar uma relação sustentada entre "fumo passivo" e câncer.
O que não significa que não existam estudos sobre essa hipótese. Christopher Booker, um especialista sobre as nossas histerias modernas, normalmente lembra dois. Os maiores e mais recentes. O primeiro foi realizado pela Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer, da Organização Mundial de Saúde. O segundo foi dirigido, durante 40 anos, por James Enstrom e Geoffrey Kabat para a Sociedade Americana de Câncer através da observação de 35 mil não fumantes que conviviam diariamente com fumantes. Resultados? Repito: um mito é um mito é um mito.
Mas a ideologia é a ideologia é a ideologia. De vez em quando, afirmo que alguns traços nazistas sobreviveram a 1945. Sou insultado. Não respondo. Basta olhar em volta para perceber que algumas das nossas rotinas médicas mais básicas teriam agradado ao tio Adolfo e à sua busca de perfeição terrena. Exemplos? Certas formas de eugenia "respeitável", praticadas por milhões de pessoas quando recebem uma má ecografia. Ou a demonização absoluta que o fumante moderno conhece nos Estados Unidos. Na Europa. E agora, hélas, em São Paulo.
Leio a legislação antifumo do Estado de São Paulo e reconheço a natureza totalitária dela, novamente dominada por uma ideia iníqua de perfeição física.
Tudo começa pela elevação da mentira a dogma: o dogma de que "fumo passivo" é um perigo fatal para terceiros. O dogma não é apenas fantasioso; é também perigoso, porque estabelece de imediato uma divisão moral entre os agentes da corrupção (os fumantes) e as vítimas inocentes (os abstêmios). É só substituir "fumante" por "judeu"; e "abstêmio" por "ariano" para regressar a 1933.
E regressar a 1933 é regressar a um mundo que desprezava a liberdade individual com especial ferocidade. A lei antifumo cumpre esse propósito. Proibir o fumo em lugares fechados, como bares ou restaurantes, é um ataque à propriedade privada e à liberdade de cada proprietário decidir que tipo de clientes deseja acolher no seu espaço. O mesmo raciocínio aplica-se aos clientes, impedidos de decidir livremente onde desejam ser acolhidos.
Mas o melhor da lei vem no policiamento. Imitando as piores práticas das sociedades fechadas, a lei promove a delação como forma de convivência social. Por telefone ou pela internet, cada cidadão é convidado a ser um vigilante do vizinho, denunciando comportamentos "desviantes". Isso não é regressar a 1933. É, no mínimo, um regresso à Rússia de 1917. Se juntarmos ao quadro uma verdadeira "polícia sanitária" que ataca à paisana, é possível concluir que o espírito KGB emigrou para o Brasil.
Finalmente, lembremos o essencial: os extremismos políticos só sobrevivem em sociedades cúmplices, ou pelo menos indiferentes aos extremistas. Será São Paulo esse tipo de sociedade?
Parece. A última pesquisa Datafolha é sinistra: a esmagadora maioria dos paulistas (88%) aprova a lei antifumo. Só 10% se opõem a ela. Só 2% lhe são indiferentes. Mais irônico é olhar para os fumantes: depois de anos e anos de propaganda e desumanização, eles olham-se no espelho, sentem o clássico nojo de si próprios e até concordam com a lei (77%). Razão tinha Karl Kraus quando afirmava, na Viena de inícios do século, que o antissemitismo era tão normal que até os judeus o praticavam. Péssimo presságio.

Cinema é música

Ontem eu assisti "Viagem a Darjeeling", outro filme do Wes Anderson sobre famílias disfuncionais que buscam se reconciliar após desentendimentos do passado. Como sempre, o cara consegue fazer ótimo uso da trilha sonora. Inspirado nisso, resolvi listar algumas das cenas musicais mais memoráveis da história do (meu) cinema.

1. "My cherie amour" (Stevie Wonder) em "Quase famosos". A cena é nonsense: absolutamente inebriado de paixão, o garoto William Miller (Patrick Fugit) contempla a sua Penny Lane drogada (Kate Hudson) ser submetida a uma lavagem estomacal. Cameron Crowe deixa de filmar o grotesco da situação para, liricamente, sublinhar a inocência adolescente, que, claro, sempre clama por uma canção.

2. "Needle in the hay" (Elliott Smith) em "Os excêntricos Tenenbaums". A música toca durante a tentativa de suicídio do tenista Richie (Luke Wilson) e a melodia down não poderia ser mais apropriada. Essa, a propósito, é uma das cenas mais emblemáticas do cinema sensorial de Wes Anderson.

3. "The house of the rising sun" (Eric Burdon) em "Cassino". A cena da morte de Nicky Santoro (Joe Pesci) é antológica e escrotíssima. Vou repetir o que já disse em outro tópico: só Scorsese tem talento para filmar alguém sendo enterrado vivo sem resvalar para a escatologia trash; só Scorsese para filmar alguém sendo enterrado vivo ao som de "The house of the rising sun".

4. "Love is strange" (Mickey & Sylvia) em "Cassino". A subestimada (e desencantada) ópera gangster de Martin Scorsese é um manancial de ótimas 'cenas musicais'. A passagem na qual toca o folk cafoninha de Mickey & Sylvia é uma das minhas preferidas em toda a história do cinema. Nela, Ace (Robert De Niro) conhece e cai de encantos pela prostituta Ginger, interpretada obcenamente por Sharon Stone. O mafioso ainda não sabia como o amor pode ser estranho.

5. "Entre dos águas" (Paco de Lucía) em "Vicky Cristina Barcelona". A música, onipresente em quase todo o filme, tem aquela levada dolente - e deliciosa - de amores ibéricos melodramáticos e irrealizáveis, que casa à perfeição com a proposta de Woody Allen.

6. "Rapsodia in blue" (George Gershwin) em "Manhattan". A música descortina o amor de Woody Allen por Nova York e deixa entrever que, sim, ainda é possível acreditar no ser humano.

7. "Perfect day" (Lou Reed) em "Trainspotting". O que é a felicidade plena? Danny Boyle chama o rei da heroína para nos cantar suas experiências, mergulha numa latrina e nos faz vislumbrar os efeitos transcendentais da droga.

8. "The end" (The Doors) em "Apocalypse Now". Na abertura da obra-prima de Francis Ford Coppola, Jim Morrison já nos antecipa: é o fim! Sublime.

9. "Where’s my mind" (Pixies) em "Clube da Luta". Os castelos da metrópole desabam, sobem os créditos finais e junto vem a música cabalística dos Pixies. Catarse total.

10. "Valse n° 2" (Shostakovitch) em "De olhos bem fechados". Sou completamente fascinado pelo plano de abertura do último filme de Kubrick. Com o auxílio luxuoso da valsa de Shostakovitch, o diretor focaliza o desejo e a bela silhueta de Nicole Kidman, mas diz à gente pra ficar de olhos bem fechados. Impossível, meu caro Stanley.

A seleção obviamente não se encerra aqui, mas, como eu não tenho interesse em retomá-la tão cedo, não posso deixar de fazer uma menção honrosa para "The Goonies 'r' Good Enough", canção-tema de Cindy Lauper para "Os Goonies". Lembro bem, com agradável nostalgia, da cena em que os garotos do filme partem em suas bicicletas para a aventura pirata. Não dá pra gente simplesmente desprezar nossa memória afetiva.                    

Férias!

Jeca como a gente, Diogo Mainardi festeja Edna O’Brien

 

Chico Buarque vai ter que se penitenciar até a morte pelo atrevimento de escrever romances. Se tanto, cantores populares, sobretudo brasileiros, devem se restringir a ofícios menos nobres. Assim pensam as autoridades intelectuais do mundo civilizado.

Diogo Mainardi, o procurador supremo de Pindorama, crítico-mor de todos nossos vícios, já mandou Chico enfiar a viola, digo, o notebook no saco. A partir dos comentários de Edna O’Brien, “festejada” escritora irlandesa que participou da última Flip, o prodígio da Veja sentenciou: Buarque é uma fraude e não tem qualquer conhecimento literário.

Para o filho de seu Enio, a repulsiva natureza do brasileiro – primitiva, burra, bajulatória e festiva – mais uma vez foi desmascarada por um estrangeiro.

De fato, em sua curta passagem pelo país, a perspicaz O’Brien teve experiências antropológicas reveladoras. Viu Chico palestrar e logo inferiu a nossa farsa intelectual. Jantou com Diogo Mainardi e percebeu o quanto podemos ser puxa-sacos.

Os astros conspiram a favor de Fernando Meireles

Acabei de assistir à sensacional "Som e fúria", que coincidentemente estreou no dia desse show de horrores que foi o funeral de Michael Jackson (com seus finíssimos narizes, Latoya e Janet eram, no palco do Staples Center, a prova viva do legado do irmão). A série de Fernando Meireles fala de forma cínica e divertidíssima sobre a espetacularização da cultura e sobre a desfaçatez dos patrocinadores das artes, que conseguem transformar até um velório em pantomina. Que conjugação astral foi essa que permitiu a Meireles estrear sua nova obra justo no dia em que, de posse de ingressos(!), centenas de pessoas se reuniram para assistir ao velório-evento do maior astro pop do planeta? "Som e fúria" representa um alento para românticos como eu. E como dá gosto ver Pedro Paulo Rangel em cena!

É preciso ser justo: capa antológica da Veja

A gente sempre se perde da gente

Lendo todos esses obituários sobre o desaparecimento de Michael Jackson me veio uma recordação do tempo. O tempo do rei do pop, seu auge criativo, um tempo muito bom. Lá nos idos dos anos 80, o signatário deste blog ainda era um menino que usava conga e acreditava em Deus. Lá, nos estertores da guerra fria, a ausência do mal do mundo me fazia um bem danado e a vida parecia mais bonita e promissora.

Vai com Michael (vem com a morte dele) toda uma evocação do que eu fui, das alegrias que tive, da espera aflita pela estréia de “Thriller” no Fantástico. E eu me lembro disso com uma saudade infinita, lembro de um sofá vermelho, lembro de meu irmão imitando aquela risada cavernosa. Havia algum mistério prazeroso no domingo, havia uma inocência amena que, infelizmente, se perdeu de mim. Estou encharcado pela sinestesia do passado. As marcas que moldaram a minha existência formam agora uma neblina onde toca “Human Nature”. Eu queria muito me jogar nela outra vez, mas, não sei bem porque, não consigo. 

Adão Iturrusgarai

Qual a sua marca?

O blog da controvérsia

A mídia reagiu de forma desproporcional e raivosa ao blog criado pela Petrobras (http://petrobrasfatosedados.wordpress.com/). A intenção de “publicar fatos e dados recentes da companhia e o posicionamento corporativo sobre as questões relativas à Comissão Parlamentar de Inquérito em curso” desagradou em cheio à grande imprensa nativa, que viu na iniciativa uma tentativa de intimidação ao trabalho dos jornalistas.

Sob a recorrente – e falsa – alegação de cerceamento da liberdade de imprensa, os colunistas das grandes redações trataram de condenar em bloco a estratégia da petrolífera, sobretudo a idéia de divulgar antecipadamente as perguntas (e respectivas respostas) feitas pelos repórteres à empresa. Pateticamente, a Associação Nacional de Jornais veio a público endossar os esperneios de O Globo, Folha e Estadão, o que acabou dando ainda mais visibilidade para o espaço.

É óbvio que o blog da Petrobras fará a defesa dos interesses da companhia, o que é legítimo e de modo algum impede a imprensa de expor o contraditório dos relatos oficiais. A forma como a estatal decidiu fazer isso também é lícita, pois não existe nenhuma lei que impeça a fonte de se pronunciar antecipadamente sobre os questionamentos que recebe. O leitor que acessa o "Fatos e Dados" sabe de antemão tratar-se de um "conteúdo chapa-branca". Cabe aos jornais mostrar o outro lado da moeda.

Esse alarido dos jornalões não passa de corporativismo infantilóide e suicida, mas se a imprensa tradicional não se repensar frente aos novos desafios e especificidades da internet, vai acabar do mesmo jeito que a indústria fonográfica pós-surgimento do mp3.

"Sinto-me natural a milhares de metros de altura,/ nem ave nem mito,/ guardo consciência de meus poderes,/ e sem mistificação eu voo,/ sou um corpo voante e conservo bolsos, relógios, unhas,/ ligado à terra pela memória/ e pelo costume dos músculos,/ carne em breve explodindo." (Carlos Drummond de Andrade)

Essa noite uma insônia chata me perturbou e eu fiquei pensando no casal de recém-casados que desapareceu no acidente com o Airbus A330 da Air France. Tive um delírio de esperança e imaginei que iria acessar a internet e encontrar lá uma notícia sobre sobreviventes, dentre os quais o referido casal. Guardo em relação aos dois uma intimidade estranha, uma piedade familiar, como se me reconhecesse neles. Não gosto de observar a foto do casamento que realizaram no último sábado, aquela fé projetada nos rostos capturados me comove e, pra piorar, vi sumir junto com eles meu último alento em relação a viagens aéreas transcontinentais: o de que não acontecem acidentes sobre o atlântico. Coincidentemente, estive pensando nisso esses dias (sempre divago sobre o desejo de conhecer Portugal) e tentei amenizar o desespero de ficar 12 horas no ar com a justificativa de que não ocorrem desastres aéreos durante a travessia América-Europa. Pois bem, não me resta mais nenhuma bóia de salvação, nem a das mentiras estatísticas, nem a da estabilidade dos vôos em cruzeiro. Agora, para enfrentar a desnatureza metálica de uma viagem sobre a vastidão do oceano, só me sobrou o sereno fatalismo da poesia de Drummond ou a prosaica possiblidade de me dopar com olcadil. 

"Ó brancura, serenidade sob a violência/ da morte sem aviso prévio,/ cautelosa, não obstante irreprimível/ aproximação de um perigo atmosférico/ golpe vibrado no ar, lâmina de vento/ no pescoço, raio/ choque estrondo fulguração/ rolamos pulverizados/ caio verticalmente e me transformo em notícia."

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